O futuro sustentável é agora

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A crise climática aqui na Holanda está muito visível e sendo largamente discutida na mídia. No final de 2019, uma comissão especial anunciou que os níveis de nitrogênio no ar do país estavam acima do aceitável, e que novas medidas para a redução de emissões de gases de efeitos estufa precisavam ser tomadas para garantir que tais índices sejam estabilizados. 

Esta semana, os jornais anunciaram que a crise não é só climática, mas ambiental, envolvendo muito mais que mudanças de temperatura e precipitação. Felizmente, a situação no momento é muito diferente do que ocorre na Austrália ou na região de Chad, na África. Ainda assim, as evidências da poluição do ar e da perda de biodiversidade (que já era escassa) são inegáveis. Se você está pensando “dura realidade”, acertou. Mas acredito piamente que temos todos os recursos que necessitamos para revertê-la.

O futuro de nossos filhos

Como vocês já sabem, sou mãe, moro na Holanda e trabalho desenvolvendo estratégias para que meus clientes adotem práticas sustentáveis com sucesso e satisfação. É parte do meu trabalho, portanto, estar atualizada sobre todas as novidades na área ambiental, as boas a e as ruins. Frequentemente, quando saem notícias ruins, as pessoas que sabem sobre minha profissão vêm conversar comigo, e o medo está visível na feição delas. Ouço confissões e perguntas do tipo “não separo meu lixo, isso é muito ruim?”, ou ainda “hoje estou muito triste porque fiquei sabendo que o Albert Heijn (maior rede de supermercados do país) causa desperdício. Achei que eles eram pró-sustentabilidade! Em quem podemos acreditar?” E a minha resposta para a última pergunta é: em nós mesmos! Quando outros pais me perguntam se acho que a situação tem jeito, ou como será o futuro dos nossos filhos, sempre respondo que: 1- tem jeito sim: 2- do jeito que quisermos e conseguirmos. De onde tiro meu otimismo? De fatos que aprendo com e sobre a sociedade holandesa.

A sacada holandesa

Na minha opinião, o governo holandês, de forma geral, encara a crise ambiental mundial de maneira diferente, por exemplo, dos Estados Unidos, que deixaram o Acordo de Paris. O que vejo aqui é a tendência de ver oportunidades ao invés de somente problemas. Essa atitude “mãos à obra” é característica de um povo que, historicamente, trabalhou muito para praticamente dobrar seu território de tamanho. Para poder plantar e ter como alimentar a população, os holandeses expandiram seu território para uma área que, originalmente, está abaixo do nível do mar. Depois de sofrer e aprender com trágicas enchentes, eles se tornaram conquistadores do impossível e pioneiros da engenharia de alta tecnologia e gestão de águas. Como? Entendendo que barreiras simplesmente não iriam manter a água fora das cidades. Eles se deram conta de que precisam conviver com a água, acolhê-la ao invés de afastá-la. 

Agora pensem comigo: as mudanças climáticas já chegaram, elas são visíveis, assim como a perda de biodiversidade e os refugiados do clima, que imigram em busca de sobrevivência. Ao invés de negar tudo isso, podemos acolhê-lo e buscar oportunidades e soluções, no nosso dia-a-dia mesmo. Estou propondo que eu, você, e todos que conhecemos continuemos a abraçar esse medo do futuro, mas sem deixar que ele nos paralise. Nossa maior motivação já sabemos qual é: nossos filhos.

Acolhendo as mudanças que geram sustentabilidade

Enquanto o Conselho de Águas da Holanda abre mais espaço para o Rio IJssel, se preparando para o aumento significativo na precipitação e para grandes tempestades que se tornarão mais frequentes, muitos outros órgãos e inúmeras entidades, assim como cidadãos, têm seus próprios projetos e suas próprias conquistas.

Adoro, por exemplo, o trabalho da produtora de cinema holandesa Gwen Jansen, principalmente o documentário Green Tales of the City e a série de televisão Green Make Over, transmitido em TV aberta. Como a Gwen mesma diz, “não precisamos tomar Prozac por causa da crise ambiental, porque já existe muita gente conquistando a sustentabilidade.” Enquanto o documentário acompanha inciativas sustentáveis e seus resultados nas maiores cidades holandesas, a série leva eficiência em consumo de energia e outras práticas ecológicas a residências como a sua e a minha (escrevi mais a respeito aqui, em inglês). Dessa maneira, a série traz não só soluções personalizadas em casa episódio, mas também conhecimento a todos os expectadores.

O que queremos, podemos e conseguimos

Cada um dos projetos de sustentabilidade existentes, seja na Holanda ou em qualquer outra parte do mundo, começaram porque seus idealizadores decidiram construir o futuro que desejam, da maneira que podem e conseguem. E a boa notícia é que todos nós podemos fazer o mesmo.

Você acha difícil separar seu lixo? Então foque em gerar menos lixo, separando, por exemplo, só os restos orgânicos para a compostagem, e comprando itens a granel (sem embalagem). Para quem mora em Rotterdam, a prefeitura facilitou a separação de resíduos para os moradores, adotando um maquinário inovador que separa até 75 por cento do plástico contido no lixo comum. Dando aos moradores a facilidade de descartar o plástico no lixo comum, a prefeitura espera garantir um índice mais alto de reciclagem devido à inclusão de embalagens pequenas, como garrafinhas, que não são retornáveis e que, até hoje, eram destinadas ao lixo comum mas não eram recicladas. 

Já em Utrecht, a prefeitura hoje não exige mais que os resíduos plásticos sejam lavados e secos antes de serem descartados na lixeira para plástico, como era em 2014 quando me mudei para cá. A triagem agora incorpora novas tecnologias que previnem a contaminação dos resíduos, limpando tudo de maneira mais eficiente do que se todo morador usar água e sabão na sua casa. 

Tais inovações são exemplos de que já estamos vivendo a sustentabilidade. O futuro sobre o qual líamos há 15 anos atrás chegou na Holanda e em muitos outros lugares. Temos a sorte de ter a nosso dispor infinitas possibilidades para garantir o futuro dos nossos filhos, de acordo com o que nossas finanças, nosso tempo, e nossas necessidades emocionais nos permitirem. Agora vá lá colocar a mão na massa! Se precisar de ajuda, estou aqui.

Published by Marina Scatolin

I'm Marina, a Brazilian expat living abroad for 12 years. As an environmental behavior specialist, I write about my impressions of environmental issues and what we can do to overcome the challenges brought by climate change. Writing at Simply Groen is part of my mission to help people find and adopt sustainable practices that fit their reality, in order to make lasting positive effects on our planet. You can also find me on social media: @simplygroen.

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